Há quem não saiba 

 que gosta de teatro

17ª MITSA

1 a 26 de Junho

EDITORIAL

 

A Mostra de Teatro de Santo André continua a ser necessária porque as pessoas o exigem, porque algumas aprenderam a gostar de teatro com ela e porque muitas outras ainda não sabem que gostam de teatro e descobrem-no em cada nova edição.

17 Mostras consecutivas com assinalável sucesso é um património significativo, tanto mais que um festival de teatro consistente não surge do nada, mesmo quando existe por detrás uma vontade política e a capacidade financeira para o realizar, porque ele é sobretudo a festa da comunhão do público com as obras e com os seus criadores.

De facto, a Mostra emergiu há 17 anos na Escola Secundária de Santo André fruto de uma forte dinâmica teatral que já tinha transposto há muito a vedação escolar e contagiado a população e o Meio. Daí para cá, cresceu em dimensão, em ambição e em qualidade, refazendo-se e aperfeiçoando-se com os sinais do público. A Mostra cresceu na afluência de espectadores às salas de espectáculos e na sua exigência crítica, mas também no reconhecimento e respeito das estruturas de criação, nacionais e estrangeiras, por este esforço de promoção do teatro junto de largas camadas da população com excelentes resultados, ano após ano melhorados.

Mas um festival precisa de ter a possibilidade de crescer e de se desenvolver porque as expectativas dos espectadores e dos próprios promotores crescem sempre mais à medida que se avança.

Ninguém duvidará que a Mostra é um caso de sucesso artístico em Portugal! Mas apesar do quadro de mudança da conjuntura nacional que estas últimas eleições nos trouxeram, continua a ser muito difícil concretizar actividades desta natureza. A cultura continua na primeira linha do “supérfluo” onde a falta de investimento tem um impacto menor na opinião pública. Não havendo uma grande capacidade de resistência e convicção dos promotores culturais e também uma boa dose de paixão e “loucura”, que por vezes se confundem, projectos como a Mostra dificilmente podem planear o futuro a médio prazo e muito menos crescer e desenvolver-se, apesar de todos os indicadores de sucesso que possam apresentar. Resta, portanto, manter a esperança de melhores dias, aproveitando a inegável onda de público gerada ao longo dos anos e o apoio de parceiros, como as autarquias locais e algumas empresas mais conscientes da sua responsabilidade social que, com o seu incentivo, nos impelem a não desistir.

A Mostra deste ano fica marcada pela renovação física e técnica do auditório da ESPAM, sede deste festival desde a primeira hora. As obras de beneficiação, patrocinadas pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém, permitiram renovar esta sala, tornando-a mais confortável e eficiente e acolher de forma mais digna as companhias de teatro e as suas montagens cénicas. Mas esta intervenção, na sequência de outras que o GATO SA e depois a AJAGATO têm vindo a promover ao longo de quase 30 anos de utilização deste espaço, presenteiam acima de tudo o público da região que merece como nenhum outro ver o seu interesse e entusiasmo reconhecidos pelo poder local. Enquanto não pudermos contar com uma infra-estrutura cultural feita de raiz, o auditório da ESPAM terá agora melhores condições para continuar a cumprir o seu desígnio de sempre: ser a sala de visitas desta cidade. Penso mesmo que não exagero se disser tratar-se do espaço cultural mais importante do Alentejo Litoral, se considerarmos a dinâmica aqui gerada e a importância e consistência dos projectos que alberga e a que deu origem em cerca de trinta anos de existência. 

 

Esta 17ª MITSA foi preparada nos moldes minimalistas de há uma década: duas ou três pessoas, a experiência acumulada e rotinas que felizmente nos permitem pôr de pé o festival. Como habitualmente, valeram-nos os amigos e a rede de cumplicidades que se reforça ano após ano. Recorremos obviamente à autarquia local, contámos com o efeito facilitador das sinergias desta região e, naturalmente, com a estrutura escolar onde aliás o projecto sempre esteve ancorado. Mas a fórmula está esgotada há muito!

A dimensão do festival reclama outra estrutura organizativa e uma equipa mais alargada e profissional que permita assegurar este longo processo de preparação com maior eficácia e menor esforço individual, só suportáveis pela paixão que nos move. No entanto, como em todas as paixões, este trabalho obsessivo e avassalador é também inevitavelmente uma fonte de angústia e insegurança e, neste momento em que damos início a mais uma edição, espero que o público, a quem todo este trabalho se dirige, responda mais uma vez com a sua presença numerosa e o seu entusiasmo, justificando plenamente todo o trabalho de quem a preparou ao longo de muitos meses e o interesse de quem, acreditando no projecto, lhe deu o seu apoio e o suporte financeiro.

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