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AUTO da INDIA

À farsa seguinte chamam Auto da Índia. Foi fundado sobre que ũa molher estando já embarcado pera a Índia seu marido lhe vieram dizer que estava desaviado e que já nam ia, e ela de pesar está chorando e fala-lhe ũa sua criada. Foi feita em Almada, representada à muito católica rainha dona Lianor. Era de 1509 anos. 
Entram nela estas figuras: Ama, Moça, Castelhano, Lemos, Marido.
(texto introdutório ao Auto)

GIL VICENTE

Gil Vicente é a figura maior do teatro português e ocupa um lugar fundacional na dramaturgia do sistema interliterário da Península Ibérica, onde ombreia com nomes tão importantes como Juan del Encina ou Lucas Fernández. São muitas as incógnitas referentes à sua biografia. Nasceu provavelmente por volta de 1465, tendo vindo a falecer em data próxima a 1536, ao que tudo indica na cidade de Évora. A atividade dramatúrgica de Gil Vicente foi desenvolvida no âmbito da corte portuguesa, abrangendo os reinados de D. Manuel I e D. João III. Deixou-nos, por conseguinte, uma produção teatral permeada por modelos mentais em trânsito para a modernidade, uma obra empenhada na renovação das formas dramáticas medievais de cunho popular, religioso e cortesão. A Copilaçam de 1562, organizada pelos filhos Luís e Paula Vicente, constitui a primeira edição da obra completa de Gil Vicente, reunindo nela os diferentes géneros que cultivou, tanto de carácter devoto (milagres, mistérios ou moralidades), como de índole profana (comédias, farsas ou tragicomédias). De 1502, data da representação do Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação, até 1536, ano da Floresta de Enganos, o dramaturgo português averbou 44 peças, das quais 15 são em língua portuguesa, 11 em castelhano e as restantes 18 em ambos os idiomas.


"Porto Editora"

CONTEXTO DA HISTÓRIA

Para trás fica a Lisboa medieval que vai descendo da Alcáçova, por Alfama e Mouraria e se estende agora, século XVI, para a Baixa - Rossio,  ocupando o "lugar de um antigo braço do Tejo pantanoso e alagadiço que, entretanto foi ficando assoreado".
Ocupando apenas uma colina estendida até ao Tejo, o seu coração pulsa e bate na orla do rio que lhe molda a vida, as gentes e o carácter. O rei, Manuel I, Venturoso, dizem, por aqui assentará palácio que os estrangeiros acham ser de arquitectura grande mas sem valor, não à altura do dos fardos de especiarias e demais riquezas asiáticas que administra.

Na Ribeira, diante dele, incontáveis embarcações (1500 entravam todos os anos em Lisboa) são como sangue da vida da capital a par de centenas das pequenas barcas de pescadores que dão de comer às 100 000 almas que povoam a urbe.

"Multidão de nações", no dizer de Jerónimo Munzer, são como colónias de estrangeiros, flamengos, espanhóis, franceses e principalmente alemães e genoveses de diversos misteres: mercadores, técnicos de marinharia, artistas e simples aventureiros, a que se juntam ciganos e escravos.

Possuir escravo, na Lisboa quinhentista, vai desde ter estatuto, a proprietário de "objecto" que servirá no trabalho, para tal disputados e como mercancia considerados.
Lisboa fervilha. De Leste para Oeste, entre marcas dos hábitos da devoção do tempo e da grandeza das Índias, erguem-se o convento da Madre de Deus, Igreja da Conceição, Mosteiro do Jerónimos e Torre de Belém.

 

É nesta Lisboa que se aparelha a armada que levará o marido de Constança.
Larga em 1506, depois de um ano de adiamento por razões de saúde do capitão Tristão da Cunha.

Em condições normais, ir e voltar da Índia tardará dois anos. Esta vai-se atrasando, mas descobrirá ilhas a quem hoje chamam de "Tristão da Cunha". Em Moçambique, atrasados e sem que o tempo   permita navegar, têm de fazer resguardo e, de permeio, exploram Madagáscar.

Navegar pelo Atlântico, acima ou abaixo do Equador e no Índico, obedecia a planos precisos quer de investigação quer de conhecimentos matemáticos, astronómicos, de ciência náutica, da tecnologia da nau e da caravela, da vela latina (triangular) que permite navegar junto à linha do vento.

Navegar pressupunha conhecer o caminho e fazer coincidir o calendário da colheita das especiarias com as condições meteorológicas, os ventos e correntes, interpretar os céus, orientar-se pelas estrelas, evitar navegar junto à costa para minorar os perigos, aproveitar ou desviar-se das correntes, arriscar-se e ter sorte.

Chega a armada ao Samorim de Calecute que outro remédio não tem que pôr remédio no que os Portugueses dele querem: especiarias em regime de monopólio e ao melhor preço.

Ao rei cabe o quinhão maior, é ele quem tem o monopólio das especiarias. O soldo dos seus servidores, concede-o el-rei sob forma de quintaladas, licença de importação de fardos de especiarias comprados com o seu dinheiro, mas transportados e desembarcados com franquias de fretes e direitos. A recompensa dos serviços prestados é atribuída na proporção da categoria social, da função ou do investimento feito.

Estamos em 1508 e lá vem a armada de Tristão da Cunha. Cinco naus carregadas de milhares de quintais de especiarias, aljôfar e pedrarias. Milhares de reais que se esfumam em luxo, em dívidas, e pagamento de empréstimos.

Do empório se dará a conhecer à Europa do Papa, em 1513, o que o "rei da pimenta" tem em luxo, poder e exotismo. A chefiar esta embaixada vai de novo Tristão da Cunha, agora não por mares encapelados mas como seu timoneiro seguro.

Já não há tormenta, mas o desastre avizinha-se!

 


"Victor Horta"

SINOPSE

Constança chora porque lhe vieram dizer que o marido, de partida para a Índia, afinal já não ia… A jovem desespera porque desejava que ele partisse e não regressasse nunca mais... mas a criada traz-lhe a confirmação da partida do marido e assim começa esta história de alegres infidelidades, primeiro com um castelhano e depois com o escudeiro Lemos. Passados mais de 2 anos, chegam noticias do regresso do marido e Constança inventa uma história de tristeza, privações e de devoção virtuosa, enquanto o marido enganado lhe relata a tormentosa viagem. No final, perante o receio de que tanto “sacrifício” não tenha ao menos uma compensação generosa, o marido cobre-a de presentes e assim termina o auto em paz e “harmonia conjugal”…

ESPECIFICIDADES DA OBRA

Apresentada pela primeira vez no ano de 1509, em Almada, perante a rainha D. Leonor, viúva de D. João II, esta foi provavelmente a primeira farsa de Gil Vicente e o primeiro texto a ser escrito maioritariamente em português, já que apenas o personagem castelhano fala nessa língua.

O "Auto da Índia" é uma peça do seu tempo, uma espécie de crónica ficcionada já que assenta em acontecimentos reais, como o da partida e chegada da armada de Tristão da Cunha, com alusões objectivas a locais, pessoas e situações factuais da Lisboa do início de seiscentos.

Ao Tejo chegavam e partiam uma miríade de embarcações, os cais e ruas inundavam-se de mercadorias nunca antes vistas e estrangeiros que vinham de todos os cantos da Europa para as adquirir. Porém, Gil Vicente não exalta a expansão marítima, como fará Camões 70 anos mais tarde, antes prefere explorar as suas consequências nas relações matrimoniais, expondo, de forma cómica, as vicissitudes de um casal, em que o marido parte para a India enquanto a mulher fica sozinha em casa.

O adultério da personagem principal, é também um tema inovador na literatura da época. Gil Vicente aborda-o sem pudores e sem tecer juízos de valor, antes caricaturando a lassidão dos costumes e a infidelidade decorrente deste aventureirismo que despovoava de homens o pequeno território português, na miragem da “negra canela” e das muitas riquezas da Índia.

CONSIDERAÇÕES DO ENCENADOR

25 anos depois de ter feito a primeira encenação do Auto da Índia foi interessante reconhecer o quão fresco estava ainda o texto na memória, mas também as principais orientações de trabalho e as inferências descobertas na primeira abordagem em 1992. Contudo, hoje era possível ir mais longe na análise dramatúrgica, com contributos académicos mais recentes e, sobretudo, contando com um elenco de actores mais experientes, mas também com uma equipa de figurinistas e aderecistas apaixonados pelo detalhe, de um iluminador experimentado e de apoio dramatúrgico proporcionado por colaboradores na área da História e do Teatro.

Mais uma vez, questionámos o texto e identificámos nele as mudanças de cena e os sinais da passagem do tempo, estudámos as intenções e as motivações das personagens, procurámos os indícios que permitissem rechear a narrativa de acções sincrónicas e, mesmo sem uma exagerada preocupação de reconstituição histórica, procurámos criar um enquadramento visual coerente com a época, numa estrutura cénica carregada de simbolismo.

Seguimos escrupulosamente o texto que chegou até nós e, das inúmeras versões consultadas, optámos pela da Imprensa Nacional coordenada por Helena Carvalhão Buescu e, para as falas do castelhano, a edição do Instituto Camões revista e anotada por Osório Mateus. 

Procurámos também no contexto histórico  a verosimilhança das situações referidas no texto com os factos possíveis de identificar à luz da História portuguesa da viragem do séc. XV para o XVI. 

Queremos respeitar e valorizar a obra de Gil Vicente dando a este trabalho uma abordagem teatral à altura da produção premiada em 1994, mas também uma importância didáctica, uma vez ser expectável que o espectáculo venha a interessar a comunidade escolar. 

"Mario Primo"

AS PERSONAGENS

 

O Marido (Carlos Gonçalves) - Quem seria esta personagem que, segundo a mulher, “deveria de morrer somente de ver o mar”? Julgamos que homem pouco experimentado nestas lides do mar e, no entanto, tripulante da “Garça”, navio comandado provavelmente por Afonso de Albuquerque e daí as pilhagens no Mar Vermelho (rio de Meca). A descrição das muitas tormentas passadas na longa viagem não lhe tiram o humor e o desejo da jovem esposa, com quem brinca com o “insucesso” da aventura - “se não fora o capitão eu trouxera o meu quinhão…” e “assim vimos destroçados, pelados como as formigas…”; para logo lhe acalmar o desespero - “calai-vos que vós vereis quã louçã haveis de sair…”.

Seria então um comerciante embarcado pela primeira vez na mira de um bom negócio, impressionado logo à partida “a cem léguas dali” com ventos de sudoeste e de oés-sudoeste que nunca tal tormenta vira, mas que apesar das muitas morte e brigas, logrou regressar a casa com um pecúlio assinalável...

Embora só surja fisicamente na parte final, o marido paira sobre a acção desde o início, primeiro pelo receio de que não parta e, depois, de que um dia volte e descubra as infidelidades da mulher…

 

A Ama (Marina Leonardo) – Suprema ironia, Gil Vicente apelida-a de Constança (constante, perseverante, aquela que tem firmeza de ânimo)... Constança é o centro de todas as atenções e em torno da qual tudo acontece. O marido parte para a Índia mas deixa-a com casa, algures em Lisboa, com haveres para 3 anos e criada para a servir… 

Jovem e formosa, encontra na condição de mulher deixada só pelo marido embarcado em viagem de regresso incerto, uma injustiça que lhe justifica os devaneios amorosos, até porque duvida que aquele regresse vivo. Porém, a avaliar pela conversa com a moça, a infidelidade era já um traço de comportamento anterior - “i se vai ele a pescar, meia légua pelo mar, isso bem o sabes tu, quanto mais a Calecut, quem há tanto que esperar”.

Não será abusivo pensar numa grande diferença de idade entre os dois e de um relacionamento afectivo pouco gratificante para quem se vê sozinha em “Maio quando o sangue novo atiça…”. Segundo Constança “o certo é dar a prazer” quanto ela por mui néscia considera a que o contrário fizer, mas o comportamento licencioso e lascivo é contido e discreto para com a vizinhança, pois há que ter em conta a honra, caso ocorra o regresso do marido… para isso conta com a cumplicidade da moça, sua criada, que tudo vê e tudo cala com promessas de recompensa apropriada…

 

A Moça (Helena Rosa) -  Esta personagem, apesar de ter uma condição social inferior, é não apenas a serviçal que se sujeita por vezes ao mau humor da ama, mas também a figura protectora, a confidente, o apoio anímico nas horas más e a alcoviteira que encobre os encontros com os seus namorados que ocorrem com a sua cumplicidade.  A criada é personagem charneira da acção: é o “compère” dos vários quadros, a tudo assiste e em tudo colabora; é o contraponto crítico do discurso exagerado e apaixonado quer da ama quer das outras personagens; a salvaguarda da memória do amo. Pragmática e realista, a moça desmascara os enganos para o público e intensifica a comicidade da representação. No entanto, trata-se de uma personagem amoral à boa maneira dos criados  “Zanni” da Commédia dell’ Arte que em breve despontará em terras italianas.

 

O Castelhano (Rogério Bruno) – Gil Vicente pouco ou nada nos revela desta personagem que alguns estudiosos entendem tratar-se de castelhano apenas por ser essa a naturalidade do actor que circunstancialmente participou na representação… Constança há-de referir-se a ele, em conversa de alcova com o Lemos, como o “castelhano vinagreiro”, mas trata-se claramente de uma justificação enganosa, uma burla de ocasião, na mesma medida em que noutro momento se refere ao Lemos como sendo seu irmão…

Do castelhano podemos inferir tratar-se de algum comerciante dos muitos que pululam por Lisboa com recursos “aún que en tal capa me veis tengo más“ e um apaixonado de Constança, palavroso, desconfiado e intrujão, capaz dos maiores sacrifícios para lograr os seus favores.

 

O Lemos (Tomás Porto) – Constança refere-se a ele pela primeira vez como tendo saudades do seu namorado perdido, alguém portanto que já conhece e a quem aceita os galanteios, porventura antes mesmo da partida do marido... Dele sabemos que é ou foi escudeiro e que é homem de poucos recursos económicos pela magra encomenda da ribeira que faz à moça. Lemos domina os bons modos cortesãos, canta e porventura toca o alaúde do seu tempo, e assim, galante e bonito, é o preferido de Constança. Tudo o resto que se pode inferir do texto, é que se mostra seguro nestas lides de amores ilícitos e que, por isso, é melhor correspondido; ao remoque de Constança que o recrimina de há muito não aparecer, responde seguro de si, “achei-vos sempre tão crua que vos não pude aturar”; a possível presença do corregedor leva-o a proteger-se de forma sensata, não se expondo inutilmente… Estaremos na presença de um sedutor e um libertino. 

Ficha Técnica

Intérpretes 

        Helena Rosa
        Marina Leonardo
        Tomás Porto
        Rogério Bruno
        Carlos Gonçalves

     

Damaturgia, Encenação, Espaço Cénico

       Mário Primo   

Figurinos e Adereços

       Helena Rosa
       Rita Carrilho

      

Apoio Dramatúrgico

       Victor Horta

Fotografia 

       Victor Horta

       José Monica

 

Carpintaria de cena

        Pedro Mira

Desenho de Luz

       Rui Senos

  

Produção

       AJAGATO

Agradecimentos

Inês Espada Nobre –  José Alberto Ferreira – Miguel Pyrrait –  Móveis Fernandes

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